Espionagem nas eleições dos EUA leva a “limpeza” nos serviços secretos russos?

Dois oficiais do FSB e um especialista de uma empresa de cibersegurança russa foram detidos e acusados de traição e colaboração com os EUA.

Sede dos Laboratórios Kaspersky, em Moscovo: um colaborador da empresa foi detido SERGEI ILNITSKY/EPA
Sede dos Laboratórios Kaspersky, em Moscovo: um colaborador da empresa foi detido SERGEI ILNITSKY/EPA

Dois agentes de topo dos serviços secretos russos (FSB) foram detidos sob suspeita de traição a favor dos EUA, confirmou esta quarta-feira o Kremlin. Mas o Governo de Moscovo nega que as detenções estejam relacionadas com a alegada interferência russa nas eleições presidenciais norte-americanas.

O que se sabe com alguma certeza é que foram detidos dois agentes do Centro de Segurança de Informação (CSI) do FSB, especializado em cibersegurança, e do chefe de uma unidade que investigava incidentes informáticos dos Laboratórios Kaspersky. De acordo com a agência Interfax, que cita um dos advogados dos suspeitos, Ivan Pavlov, os três homens são acusados de “traição a favor dos EUA”. Outra fonte fala mesmo em “cooperação com a CIA”. Foi presa uma quarta pessoa, não identificada, e outras oito “foram identificadas como cúmplices”, diz uma fonte anónima à Interfax.

O crime de traição pode conduzir a penas de 20 anos de prisão e, devido à natureza sensível dos assuntos em causa, os julgamentos não são públicos. A revelação das detenções acontece algumas semanas depois de o jornal independente Kommersant ter noticiado a iminente demissão do chefe do CSI, Andrei Gerasimov.

Os elementos do FSB detidos foram identificados como o chefe departamental, coronel Serguei Mikhailov, e o seu adjunto, major Dmitri Dokuchaiev. A detenção de Mikhailov, em Dezembro, teve contornos cinematográficos, de acordo com o jornal conotado com a oposição Novaya Gazeta.

Saco na cabeça

A Kaspersky já tinha revelado na semana passada que o seu funcionário Ruslan Stoianov havia sido detido, embora por razões que não envolviam as suas funções na empresa.

As detenções surgem poucas semanas depois de os serviços secretos norte-americanos terem concluído que o Governo russo montou uma operação informática para interferir nas eleições presidenciais. Foi ainda divulgado um relatório que chegou às mãos da CIAque continha informações potencialmente comprometedoras sobre o Presidente norte-americano, Donald Trump, e que estaria em posse do Kremlin.

Não foi feita, porém, qualquer ligação oficial entre as detenções e as alegações dos EUA – que Moscovo sempre negou. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse à agência RIA Novosti que as acusações de traição não estão relacionadas com a alegada interferência russa nas eleições norte-americanas.

Vários analistas dizem que é provável que uma das fontes para que as agências de espionagem dos EUA tenham obtido certezas quanto ao papel do Kremlin na interferência eleitoral possa ter sido através de oficiais russos. “Há muito que julgo que teve de haver algum recurso humano” a sustentar as conclusões da CIA, nota Mark Galeotti, autor de vários livros sobre o aparelho de segurança russo, citado pela Time.

Numa coisa todos os analistas, observadores e correspondentes concordam: no enigmático meio dos serviços de informação russos é pouco comum haver tanta publicidade a detenções e acusações deste género. “O FSB é agência de segurança mais secreta e rigorosa da Rússia no que toca a usar métodos repressivos”, explica ao Daily Beast o jornalista Anton Naumliuk. “Se a informação sobre a detenção de Mikhailov foi divulgada, isso foi feito com um único objectivo: ameaçar toda a gente”, acrescenta.

Fonte: Publico

https://www.publico.pt/2017/02/01/mundo/noticia/alguem-esta-a-limpar-a-cupula-dos-servicos-secretos-russos-1760473

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